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Geral "Chega de sofrimento, agora estamos juntos novamente"

 

A roça é a mesma, mas tudo está diferente. Foi esse o primeiro pensamento que passou pela cabeça de Antônio Gleiber Cassiano Júnior, o Juninho, quando saiu do carro nesta sexta-feira (12) e pisou pela primeira vez em Campos Gerais (MG) após quase três anos. Primeiro veio a luta pra conseguir ir para os Estados Unidos fazer o transplante de intestino que salvaria sua vida, e depois veio aquela para sobreviver à operação, à distância, à saudade. "Nasci duas vezes", diz o agora jovem de 18 anos ao pensar em tudo que passou.

Juninho era apenas um adolescente de 14 anos, crescendo na zona rural da cidade, quando descobriu que tinha a síndrome do intestino ultracurto. Amava a vida na roça, mas teve que deixar tudo pra trás pra continuar vivendo. Após diversos procedimentos no Brasil, somente o transplante em um hospital em Miami poderia curá-lo. Ao conseguir na Justiça o custeio da viagem e a operação de mais de R$ 3 milhões pelo Ministério da Saúde, viajou para os Estados Unidos com 16 anos para só retornar pra casa nesta sexta-feira.

A espera

A saudade do Juninho de casa tem cheiro de bolo de fubá com amendoim. Maria Dulce Pereira Diogo, ou dona Dulce, avó de Juninho, preparou a receita na fôrma de coração pra esperar a chegada do neto. Fez ainda o pão de queijo e o queijinho preferidos de Juninho. Está de pé desde às 7h arrumando a casa para a hora do encontro. Foram tantos anos de espera.

"No começo foi muito difícil, senti muito [a falta dele]. Mas eu entreguei nas mãos de Deus. Só Ele que me deu consolo."

Depois que a avó ficou viúva, Juninho, que sempre gostou de tirar leite de vaca e trabalhar na roça, foi morar com ela. Passou cinco anos na casa de dona Dulce até começar a passar mal, no início de 2014. A avó lembra de cabeça o dia, 22 de agosto, que ele saiu de Campos Gerais para iniciar a sua batalha pela vida. 

  "Nunca tinha ouvido falar disso de transplante de intestino", comenta dona Dulce sobre quando soube que o caso era tão sério que só teria cura com a operação nos Estados Unidos.

Durante esse tempo todo acompanhou de longe a recuperação do neto. Falavam-se duas vezes por semana por telefone pra trocar as notícias. Na fase difícil de recuperação do transplante, em que chegou a ouvir que o neto poderia não resistir à operação, fez uma promessa a Nossa Senhora Aparecida de que mesmo que Deus tivesse que levar ele, queria ver o rostinho e ouvir a risadinha dele mais uma vez.

"Quando ele chegar, vou encontrar com ele na porteira com a imagem de Nossa Senhora, pra ele pegar ela antes de entrar em casa." 

O encontro

Na tarde desta sexta-feira, Dona Dulce caminhava com a santinha recitando em voz alta agradecimentos e a ansiedade pelo encontro. O curto caminho até a porteira, onde esperavam por ela, parecia tão longo. Seguiu pra lá com outros dois netos. O choro desesperado de Alessandra Marques Ribeiro Cassiano, mãe de Juninho, ao ver o filho mais novo de 9 anos, resume tudo. "Chega de sofrimento, meu Jesus Cristo. [...] Agora estamos juntos", repetia enquanto unia todos em um abraço.

Alessandra não via o menino Jean desde que viajou para os Estados Unidos com Juninho. “Na hora que eu vi ele, minhas pernas bambearam. O coração faltou sair pela boca”, conta emocionada. O abraço estava completo com o pai de Juninho, que voltou para o Brasil após passar seis meses ao lado do filho do outro lado do continente. Pouco antes, Jean tinha feito um desenho com a família toda reunida em frente à casa da roça. Agora a cena se tornava realidade. 

  A vida nos Estados Unidos não foi nada fácil. Primeiro veio o medo de perder o Juninho. Após passar pela cirurgia, ele passou 45 dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital em Miami. Levou-se um tempo até que a família tivesse certeza que o transplante daria certo e que não haveria rejeição. Juninho não consegue nem contar quantas vezes teve medo de morrer.

Depois veio a aflição pela distância da família e se acostumar com uma vida tão diferente da que deixaram pra trás. Os dois não conseguiram aprender o inglês e, com isso, se adaptar à rotina no país estrangeiro. “Foi muito difícil, passava muita coisa na minha cabeça, medo de não dar certo a volta”, conta Alessandra.

O único alívio era uma família brasileira vizinha deles no prédio em que viviam, que ajudava a tornar a rotina entre hospital e casa um pouco mais parecida com a do Brasil. Passavam Natais e aniversários juntos e apoiavam uns aos outros. 

  Após cerca de dois anos, quando finalmente receberam a notícia de que poderiam voltar para o Brasil, o desespero tomou conta dos dois. Ainda não tinham condições financeiras pra viagem e eles só queriam chegar em casa. Ao ser questionado sobre o que mais sentia falta do outro lado do mundo, Juninho responde: “Pra falar a verdade, dos animais. Das vacas, dos cavalos, de ajudar também o pai com os tratores. Pode falar que é de tudo.” Quando desceu do carro, ele não conseguia parar de olhar o horizonte, num misto de alegria e nostalgia. “Pensei que ia estar do jeito que eu deixei, mas está tudo diferente.”

A volta pouco depois de completar 18 anos só foi possível pelas doações de conhecidos e desconhecidos que ajudaram a custear a viagem da família. Pra eles é até difícil colocar em palavras o quanto são gratos por toda a mobilização nesses três anos. “As pessoas foram muito especiais na nossa vida. Eu agradeço de coração pelas orações, pela vida dele, que hoje está aqui vivo, com saúde, vai dar muita alegria pra nós”, declara Alessandra.

Juninho completa o agradecimento. “Muita gente me ajudou, e eu não tenho como falar o quanto tenho pra agradecer eles, porque sem eles... terem orado por mim, porque sem o incentivo deles, talvez hoje eu não estaria aqui. Sou muito grato ao que todos fizeram pra mim.” 

  Na cozinha da avó, Juninho aponta o calendário e fala pro pai que ele precisa marcar a data da volta, 12 de maio. Após tanto medo de que o retorno nunca acontecesse, fica até difícil acreditar no que está vivendo.

“Pode dizer que foi um milagre [a minha recuperação]. Nasci duas vezes. É igual a minha mãe diz, eu faço aniversário duas vezes por ano. Agradeço muito a Deus por ter ajudado, lá em cima ter olhado por mim, e estar aqui hoje com minha família, e logo, logo com meus amigos também.”

O futuro

Aqui no Brasil, Juninho vai continuar sendo acompanhado pelo Hospital das Clínicas em São Paulo (SP). Para se recuperar da cirurgia, precisa tomar 10 tipos diferentes de medicamentos com um custo mensal de cerca de R$ 6 mil, que será custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Além disso, ele precisa tomar cuidados para não se contaminar de nenhuma forma, se protegendo com luvas, botas e roupas para o trabalho na roça, não ficando perto de pessoas doentes, tomando cuidado ao lidar com os bichos. Seu sistema imunológico ainda está frágil demais para ter uma vida completamente normal. “E tem que tomar muita água, porque o medicamento ‘seca’ o rim, pode dar cólica renal e pode [ter que precisar] de fazer um transplante de rins. A vida dele agora é remédio e água”, explica Alessandra.

Mas nada se compara ao longo caminho que percorreram. Após ganhar a vida novamente, Juninho pode finalmente sonhar como qualquer jovem com seu futuro. “Tenho que acabar meus estudos, planejo fazer uma faculdade. Quero fazer veterinária e ficar na roça, que é meu sonho.” 

A luta

Juninho tinha 14 anos quando os problemas decorrentes da "Síndrome do Intestino Ultracurto", uma doença rara, começaram a se agravar. A família descobriu que em Miami (EUA) existia um hospital bem sucedido nesse tipo de cirurgia e começou a fazer campanhas na cidade e nas redes sociais para conseguir o dinheiro pra realizar a operação. O valor foi estimado à época em R$ 3 milhões. A história dele comoveu pessoas na cidade e em todo o país, que ajudaram fazendo doações.

A família também entrou na Justiça para conseguir que o Governo Federal cubrisse os custos da cirurgia, e cerca de um ano após descobrir a doença, conseguiu a decisão judicial favorável. Em 12 de janeiro de 2015, Juninho foi operado. A alta médica veio em agosto de 2016, mas quase um ano se passou até que o tratamento pelo SUS, no Brasil, fosse ajustado, e a família conseguisse o dinheiro para trazê-lo de volta para Campos Gerais. 

Fonte: G1

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